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A conta do papa

30.04.08

por Daniel Oliveira

O banheiro do papa

(El baño del papa, Uruguai/Brasil/França, 2007)

Dir.: César Charlone e Enrique Fernández
Elenco: César Trancoso, Virginia Méndez, Mario Silva, Virginia Ruiz, Nelson Lence

Princípio Ativo:
o ópio do povo

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1. Segundo o Aurélio, empreender significa

“deliberar-se a praticar, propor-se, tentar (empresa laboriosa e difícil)”.

Construir um banheiro ‘público’ não é fácil nem simples para o uruguaio Beto (Troncoso), morador da pobre comunidade de Melo. Mas ele tenta mesmo assim. O que nos permite considerá-lo empreendedor. E Beto se propõe a isso durante a visita do papa à cidade nos anos 80, enquanto os outros vizinhos preparam comidas e bebidas para vender. O que nos leva a pensar que ele não é só empreendedor, mas também esperto.

2. Já segundo Briony/Ian McEwan no final de “Desejo e reparação”, as escolhas feitas ao encerrar seu livro se dão devido a um senso de esperança, beleza ou mesmo de justiça, que não poderia ser extraído do relato dos fatos exatamente como aconteceram.

Seguindo esse ‘contrato’ que alter-ego/autor acreditam existir entre criador e receptor, é de se esperar algumas coisas de “O banheiro do papa”.

Os diretores César Charlone (diretor de fotografia de “O jardineiro fiel”) e Enrique Fernández apresentam Beto como um homem falho, mas trabalhador e esforçado – que nos faz até rir com sua obstinação. Fazem sua filha, Silvia (Ruiz), ver o pai ser humilhado enquanto empurra a bicicleta do infeliz (numa seqüência claramente inspirada em “O ladrão de bicicletas”). E usam suspense griffithiano no final, para o espectador roer as unhas sem saber se o vaso chega a tempo ou não.

Espera-se: a) que eles recompensem o sofrimento de Beto; b) dêem uma esperança para o sonho de Silvia em ser jornalista; c) enfim, se a ficção é tão bem usada, que a realidade patética seja ignorada, ao menos no filme.

Charlone e Fernández, contudo, não são Briony e McEwan. O contrato não grita mais alto que os fatos.

3. Some os dois itens acima e

“O banheiro do papa” = bom uso de linguagem e referências cinematográficas + discurso político amargo no final.

A câmera de Charlone mostra de perto um povo simples, mas bravo, que tem no frio azulado a materialização das adversidades enfrentadas diariamente. Um fiapo de sol, no entanto, está lá e é a ele que os moradores se agarram ao preparar uma quermesse de proporções bíblicas para a visita canônica, pendurando até as ceroulas na conta do papa, e confiando no lucro com a fé de nosotros, seus vizinhos.

“O banheiro do papa” mostra seca e cruelmente o fracasso dessa empreitada. E deixa bem claro no final seu discurso marxista-eisensteniano: o povo foi capaz de algo grande e elaborado, só não devia ter confiado sua energia à religião. Porque pode até ser que Deus ligue para os problemas deles. Mas o Papa, claramente, não está nem aí.

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Beto: correndo atrás do prejuízo.

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