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A colherinha

12.07.07

por Rodrigo Campanella

Harry Potter e a Ordem da Fênix

(HP and the Order of the Phoenix, Estados Unidos/Inglaterra, 2007)

Dir.: David Yates
Elenco: Daniel Radcliffe, Rupert Grint, Emma Watson, Imelda Staunton, Gary Oldman

Princípio Ativo:
papelada

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Nos almanaques de cinema, o símbolo de 2007 pode ser uma seqüência de caça-níqueis. Emo-aranhas, piratas da barba feita e Mc Ogros usaram o 3 em seus cartazes para chupar salas de cinema com canudinho e ganhar público por inércia. Com outro número na camisa, é nesse time que o quinto “Harry Potter” entra para somar suas 21 mil cópias em cinemas pelo mundo.

Os fãs da série não terão muito para reclamar, fora o bombardeio habitual na web discutindo a fidelidade ao livro. É um filme feito para eles: o universo potteriano nunca foi tratado com tanto respeito e salamaleques como nessa direção de David Yates.

O fã vai ao cinema para ter de novo a primeira vez com uma história que já conhece, no papel. Dessa vez o longa não dedica muito tempo a salas secretas, professores-ícone ou quadribol, mas deposita dólares no detalhamento e encanto dos cenários e no visual coalhado de sombras, para acrescentar na imaginação. Também procura não pular uma só página do volume cinco: o filme acena para uma porção de personagens e histórias aos pedaços. Seria ideal anexar em cada ingresso um livro, item que os fãs já carregam na cabeça.

Para o restante do público é que entra em cena o título desse texto. “Você tem o emocional profundo como uma colherinha” é uma fala de Hermione, melhor-amiga oficial de Harry. É a unidade de medida do filme. A colherinha serve para raspar as bordas das coisas fundas até que fiquem lisas. Quase ninguém a percebe, os efeitos é que são inesquecíveis.

O diretor Yates quis fazer do novo Potter o primeiro filme por-si da franquia, ligado mas não dependente dos outros. O coisa-ruim particular Voldemort e detalhes mágicos borbulham no subsolo, deixando o térreo para o conto de uma escola (Hogwarts) transformada em caixa-rápido de estupidez, a matéria-prima sendo o medo. O filme dança sobre montinhos atuais de cinza fascista, sem perceber que ele próprio sublinha, em falas senso-comum ruins à beça, quem são OS VALOROSOS e OS MAUS.

Se nos livros Potter e cia. talvez possam ser ambíguos e ter tons de cinza, a colherinha dos produtores de cinema vem agradar pais sem paciência para a leitura – e, claro, vender lancheiras. Mas é melhor redirecionar os negócios. Daniel Radcliffe já aparenta vinte anos ao fazer um Harry Potter de dezesseis. E se o filme não decide entre um conto mágico ou uma dramédia política, isso não impede Potter de ter crescido junto com seus fãs. Mesmo que colherinhas não sejam fabricadas com cérebro.

A luz de um lado. Ele virado para o outro.

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