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Conveniências pela metade

14.11.07

por Rodrigo Campanella

Leões e Cordeiros

(Lions for lambs, Estados Unidos, 2007)

Dir.: Robert Redford
Elenco: Meryl Streep, Robert Redford, Tom Cruise, Michael Peña, Peter Berg

Princípio Ativo:
comício

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Al Gore tem um concorrente.

Mas nem precisa gastar sua global preocupação com isso. Robert Redford, mesmo sem contar com um PowerPoint de trocentas polegadas e um auditório com platéia, conseguiu uma proeza, auxiliado pelo roteirista – transformou uma história de ficção em uma longa palestra, com leve maquiagem de narrativa.

“Leões e Cordeiros” é um filme de três cenas: Tom Cruise congressista tenta convencer a repórter Meryl Streep a divulgar sorridentemente um novo plano de “salvação do Afeganistão” via surra militar; o professor Redford palestra para um aluno promissor, procurando que ele reencontre a fé política e saia da apatia; e dois recrutas feridos esperam impacientes pelo resgate ou seu massacre, no Afeganistão.

Cada trilha dessas se une às outras de modo mecânico, como para não deixar dúvida de que isso é um discurso político onde só falta o púlpito: os recrutas emboscados são ex-alunos exemplares de Redford e fazem parte do plano de guerra, capenga e estúpido, para o qual o congressista busca publicidade fantasiada de “hard news”, notícia quente.

Nada contra, politicamente. O que não afasta o fato de que “Leões e Cordeiros” é um zero cinematográfico à esquerda da vírgula. Rimar política e cinema nem é tão difícil – “Syriana” é um dos melhores filmes efêmeros de 2005, “Boa Noite e Boa Sorte” vale uma olhada a qualquer hora. E ainda, comparando com “Leões”, esses dois já estão dez lances acima na escada da honestidade.

Por trás de todo o panfleto anti-guerra e ‘politicamente crítico’ de “Leões” há mais omissões que dedos apontados. A ‘guerra ao terror’ é, mais que política, um bafejo de prosperidade econômica para os donos atuais do poder nos Estados Unidos. Petróleo, gasodutos, construção civil, produção de equipamento e suprimento militar, permanência no poder – essa é a pauta do dia, valendo bilhões, da qual o filme passa longe. Já acusações genéricas e um heróico incentivo ao, hmmm, engajamento, ele tem de sobra.

O que salva: a última cena, onde um estupefato estudante assiste a um ‘plantão urgente’ jornalístico altamente relevante, apresentado por uma Barbie americana de farmácia, com o nome cada vez mais crível de algo como Summer Hernandez-Kawalski. E o quase-escândalo de Streep na sala do editor, pós-entrevista. Se o filme fosse apenas ela, berrando assustadoramente o estado das coisas que o filme apenas sopra com delicadeza, certamente o termômetro aí no alto estaria perto dos 100ºC.

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