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Lunetas novas

03.12.07

por Rodrigo Campanella

Mutum

(Brasil, 2007)

Dir.: Sandra Kogut
Elenco: Thiago da Silva Mariz, João Miguel, Wallison Felipe Leal Barroso, Izadora Fernandes

Princípio Ativo:
pé-no-chão

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“Mutum” adapta para cinema a novela Campo Geral, de Guimarães Rosa. Quem for buscar na tela um caleidoscópio de imagens para traduzir a prosa musical, intrincada e sertaneja do escritor só vai encontrar surpresa.

O filme não se recusa apenas a transformar as ricas imagens literárias do escritor em um rocambole visual. Ele também deixa de lado o senso comum quando faz sua leitura própria do sertão e dos sertanejos presentes na obra. Quando os créditos sobem, já parece cristalino: as palavras caudalosas de Rosa eram imensas descrições de silêncios, atentamente observados e observadores.

Na fazenda onde Thiago/Migüilim mora com a Mãe, a avó, os irmãos e o distante Pai (o excelente João Miguel), é a rotina cotidiana de sobreviver que põe ponteiros no relógio do dia. Fazer a comida, as roupas, os brinquedos, as cercas, a lenha do fogão, os reparos da casa, a venda ou a troca do excesso, a limpeza do lugar. Alimentar os filhos, os animais criados, a plantação, a despensa, o afeto, o sexo, o coração, a conversa rarefeita. Um espaço familiar que alguém, distraidamente, pode chamar de íntimo, mas onde ali os costumes e a penúria transformam em convivência forçada e sem escape, a não ser a desonra da fuga, ou a morte.

No entanto, é nesse mundinho que Thiago (o ator mirim Thiago da Silva Mariz, morador da região) cresce, corre, voa baixo de pé no chão com os irmãos, tudo isso traduzido naquele retrato instantâneo, metade azul e metade terra, que estampa o cartaz principal do filme. O menino entende o enredo familiar aos pedaços, ignora o que dá, sorri quando pode. E tudo se toca em frente, até que a tragédia toma a cena em três atos, expulsando Thiago da infância de menino e o lançando na infância de cidadão de um mundo maior.

O que se acompanha desse moleque, sem que ninguém consiga distinguir direito à primeira vista, é uma longa cerimônia de adeus.

“Mutum” é um filme de vivência. A textura das vidas que aparecem na tela – suas cores, a fala baixa, os gestos contidos, os espaços em espera – é fruto provável dos meses passados pela diretora no local das filmagens, norte de Minas, buscando os traços da história de Rosa no sertão de hoje.

É uma obra grávida, o tempo de gestação de um livro íntimo sobre os outros virando um filme íntimo sobre esses mesmos, filmado com alguns deles, moradores dali, atuando na tela. Sua duração é o quanto leva para o menino Miguilim perder o planeta em torno do qual orbitava, ganhar um par de lunetas e descobrir como é maior o universo. Ainda que a maravilha da descoberta nunca deixe de fazer algo doer, na partida.

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