A música da vida real

Nossa avaliação

Todo mundo gosta de música. Sério, não é generalização, é real. Todo mundo gosta de música. Tem gente que não gosta de livros, ou de histórias em quadrinhos, até mesmo de filmes ou series, mas com música é diferente. E eu não estou falando sobre determinados estilos musicais, eu estou falando de qualquer tipo. A vida das pessoas tem trilha sonora. É música para dormir, transar, acordar, trabalhar, brigar, ser feliz, ser triste, estudar, arrumar a casa e até para morrer. Quando a Música Acabar, de Isaque Sagara tem música. Mas tem muita coisa por trás das músicas em sua obra.

Será quer partimos de um começo pro fim?

[Começa a nossa trilha sonora]

Quando a Música Acabar, HQ lançada pela Editora Mino, e faz parte do projeto Narrativas Periféricas. Como todos os títulos deste selo, também é escrita por um autor que vive, dialoga e contextualiza sua história dentro da periferia.

Ambientada em 1991, Quando a Música Acabar foca na história de três amigos: Elizabeth, Bruno e Tiago. Os três participarão da festa de aniversário do Bruno e a trama começa com os preparativos. Porém essa festa vai ser praticamente um portal para a vida (ou morte) desses jovens. Muito mais do que uma curtição é um momento de libertação e prisão de cada um.

Nos preparativos, Tiago e Bruno estão comprando as bebidas e Elizabeth, a namorada de Bruno, está em uma consulta médica onde recebe a notícia de que está com AIDS.

[Inserir aqui uma música fúnebre]

Logo de cara, Isaque Sagara apresenta a problemática mostrando que seja lá o som que vai rolar nessa festa, no fim, definitivamente não vai dar samba.

Então, conseguimos ver, ao reparar nos detalhes da história, como os problemas são entendidos e apresentados de maneira completamente diferente quando se vive na periferia. Ok, não estou dizendo que receber a notícia de um diagnóstico de AIDS é fácil para quem é rico, porém, quando você vive em uma região com menos acesso, os recursos para passar por problemas, inclusive de saúde, são mais escassos.

Elizabeth

Quando a Música Acabar está no começo dos anos de 1990, mas não precisa ir muito longe para observar as dificuldade na periferia com clareza. Hoje, passando por uma pandemia, que os negacionistas podem falar o que quiser, ela ainda está aqui, fica evidente o abismo na sociedade.

Receber a notícia de que contraiu uma doença grave, na distancia desse abismo, desestrutura facilmente qualquer cabeça.

A AIDS mexeu com a cabeça de Elizabeth. Ainda mais estando em 1991 quando não se sabia nada sobre esse vírus que matava muitas pessoas. E mexeu também porque ela poderia ter sido traída pelo namorado. Mexeu porque ela ia morrer e não conseguia ver perspectiva de salvação. Então, a festa foi sua libertação.

E para se ver livre de todos esses problemas, Elizabeth se tranca no banheiro e usa cocaína sem parar. Porque muitos vê a libertação nas fugas cotidianas, porém não percebem que ao fazer isso mais se prendem e se perdem.

O meu prazer, agora é risco de vida.

[Troca a música]

Drogas e saúde pública não são, nem de longe, os únicos problemas na periferia. E é impressionante como Quando a Música Acabar passa por diversos temas de maneira fluída. Parece mesmo que estamos andando pelos cômodos de uma casa, ouvindo as músicas, entendendo e interagindo com as personagens.

Muito disso, se dá ao fato de Isaque Sagara passar toda a ambientação de maneira simples e real. Só quem viveu em periferia conseguiria passar os diálogos como são passados. Mostrar a estrutura e a decoração da casa. Além de tudo que envolve a história, como as ruas, casas e os mercados de bairro.

Até que nesse passeio narrativo, chegamos em Tiago, o anfitrião da festa, e Bruno, o aniversariante.

Tiago é a típica pessoa bem humorada e divertida, porém, tem um pano de fundo triste e comum para muitas pessoas. Filho de mãe solo, Tiago cresceu sem pai e agora, sua mãe namora com um rapaz violento que a agride.

Enquanto Bruno é envolto por uma dúvida deixada pelo autor desde o começo da história: ele traiu Elizabeth ou não? E essa dúvida coloca um julgamento muito grande sobre ele, onde o leitor fica esperando um deslize a cada fala e a cada aparição. O pior ainda? É que essa dúvida recai sobre o único personagem negro da história.

Tiago e Bruno

[Sobe o som]

Com Elizabeth se perdendo nas carreiras, não as musicais, mas as do pó, Bruno e Tiago se perdem no ódio. Tiago em um ódio tremendo que ele tem do namorado da mãe e Bruno o ódio que a sociedade tem por sua pele escura.

Tiago mostra para Bruno uma arma. Arma essa que pertencia ao namorado de sua mãe (uma pessoa que, provavelmente, seria considerado um homem de bem pelos padrões atuais). E é com essa arma que ele pretende libertar a própria mãe.

Enquanto isso, polícia é chamada para acabar com o som alto da festa que atravessava horas da noite. O que encontra é muito mais do que a música, mas outros tantos sons. E visões também. Como a visão de uma arma, um jovem branco e um jovem negro.

BLAM!

[Para a música]

Silêncio.

Deixo vocês imaginarem o que aconteceu.

 I don’t worry about nothin’

Participações e referências dentro da HQ não faltam, não apenas nas músicas tocadas, mas nas homenagens dentro da história, como a participação da banda Utopia (antigo nome da banda Mamonas Assassinas) e de um doutor muito parecido com o Druazio Varella. Mas a maior referência que Quando a Música Acabar oferece ao leitor é a referência da vida na periferia.

E de uma maneira tão concisa e clara que mostra que a vida não é só sofrida. Existem problemas como falta de acesso a saúde, vícios em drogas, violência doméstica ou preconceito (e muito tantos outros nem citados por aqui). Mas também, existe festa, diversão, entretenimento, funk no morro. Juventude.

E é isso que me encantou nesta HQ. Porque os dois lados existem. Ambos são mostrados em um paralelo. Mas de uma maneira tão natural que ao fechar a HQ e a música realmente chegar ao final, você só consegue pensar uma coisa: Isso é a realidade.

E tal como a máxima da música que todo mundo gosta, mas que é curta e logo acaba, também não dá para escapar da máxima da vida: ela precisa ser vivida e a realidade encarada, mas também acaba.

Tico Pedrosa é publicitário, roteirista, escritor, professor e criador de conteúdo. Fã de quadrinho desde sempre. Você pode conferir as ideias dele no instagram e twitter.

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