Várias vidas em isolamento

A pandemia ainda não acabou. Mas se você mora no brasil, consegue perceber dois tipos de pessoas (você pode ser uma delas): aquelas que já estão vivendo uma vida normal como se a pandemia estivesse passado; e aquelas que estão vendo todos em volta vivendo uma vida normal enquanto ainda espera a pandemia passar. Com mais de um ano e meio de pandemia, com um desgoverno que fomenta o negacionismo, os artistas que não foram afetados criativamente (e foram poucos) tiveram um bom tempo para produzir histórias. Em um ambiente tão absurdamente propício para criar histórias loucas, Helô D’Angelo fez um diário da vida real vista pela sua janela e lançou a HQ Isolamento.

Observação

Março de 2020. Se temos a impressão que faz tanto tempo que passamos por essa data onde iniciou a pandemia, as vezes também parece que nunca saímos de lá. Em uma situação nova, o trabalho e o entretenimento mudaram. Home Office, licenças no trabalho, bares, cinemas e diversos comércios fechados na tentativa de frear o contágio de Covid 19. O freio foi curto, com um total descaso do governo federal que minimizou a pandemia, esnobou mortes e fez chacota com a doença. Além de um descaso também da população brasileira que mais do que nunca se mostrou apática e distante da dor do outro. O povo brasileiro, de maneira geral, derrubou a máscara de acolhedor e escancarou logo o individualismo e o egocentrismo.

Para muitos que estavam respeitando o isolamento, apenas uma coisa restava: observar. Foi exatamente o que a ilustradora Helô D’Angelo fez. Pela janela de seu apartamento, e aproveitando uma estrutura ente prédios que fazia com que a acústica do som de fora se propagasse e chegasse quase que limpa em um autofalante até o interior de seu apartamento, Helô observou e ouviu seus vizinhos.

Esse trabalho de observação virou uma tirinha on-line semanal, em que o Edifício Isla Bonita se tornou uma página e cada janela dos 12 apartamentos que Helô conseguia ter contato se tornou um quadro. Durante meses, ela relatou o que via. Apenas aquele recorte da vida vista pela sua janela. Quase como um diário de bordo, mas a viagem desta vez, era dentro do imaginário de seus vizinhos. Os relatos, de uma webcomics se tornou um quadrinho impresso, com campanha financiada em 247% no Catarse.

Amostras

Como qualquer pesquisa que usa uma amostragem para retratar o todo de uma sociedade, Isolamento consegue, com seus 23 personagens espalhados em 12 apartamentos, retratar o recorte do brasil durante a pandemia. Temos uma história de divórcio por divergência política, temos casal engravidando, temos um idoso bolsominion, temos negacionistas, temos pessoas cansadas de reuniões em home office, temos blogueira que vai da ascensão ao cancelamento, temos pets fazendo parte da família, pessoas com crianças em casa.

Não apenas a personalidade de cada personagem, mas os acontecimentos extra condomínio, também registrados e narrados por Helô mostram como foi o período do primeiro ano da pandemia. As músicas cantadas e compartilhadas nas janelas no início do isolamento, os panelaços durante os pronunciamentos do despresidente, algumas pontuais manifestações políticas durante o ano de 2020, Natal, Ano Novo, chegada da vacina, Carnaval, BBB, manifestações antivacinas, e número de mortos subindo cada vez mais. 50 mil. 100 mil. 500 mil.

Se hoje a HQ Isolamento é só uma compilação de tiras sobre o cotidiano das pessoas durante a pandemia de Covid 19, acredito que daqui a alguns anos este quadrinho se tornará um documento muito importante. Um recorte real sobre o que foi a quarentena que pareceu não ter fim aqui no brasil.

Livro de história

Lembro-me de conversar com um amigo sobre algumas HQs que estavam em campanha no catarse durante o período em que Isolamento estava em arrecadação, e ele fez um comentário muito infeliz a respeito da HQ: “Conseguiu ser financiada porque a autora usou a oportunidade de lançar algo sobre a pandemia e está na moda”. Mas Helô D’Angelo não é esse tipo de artista. Isolamento não é este tipo de HQ.

Meu amigo não conhecia o trabalho de Helô, que eu já seguia há muito tempo e acompanhei Isolamento desde o início pelas redes sociais. Meu amigo não conseguia entender que como esta HQ era um relato importante sobre nossa época porque observava o tema apenas com os olhos do dinheiro. Fico triste por ele, mas ao mesmo tempo, acredito que ele também faz parte de um recorte da sociedade que se mostrou nesta pandemia.

Que bom que ele estava errado. E que bom também que apoiei essa HQ assim que foi anunciada, pois, em um país como o brasil, cheio de mentirosos e negacionistas, ter este material em mãos é tão potente quanto qualquer livro de história que será publicado no futuro sobre este período. E bem, a gente sabe muito bem como são nossos livros de histórias, não é? Mas isso… isso é assunto para outro texto.

Obrigado, Helô.

Tico Pedrosa é publicitário, roteirista, escritor, professor e criador de conteúdo. Fã de quadrinho desde sempre. Você pode conferir as ideias dele no instagram e twitter.

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