Um divã para dois

Nossa avaliação

[xrr rating=3.5/5]

Todo mundo tem problemas sexuais. E não que todo mundo seja uma Lena Dunham capaz de discutir (e exibir) seu próprio corpo na HBO, mas a gente chegou num estágio em que consegue falar de forma razoavelmente aberta sobre eles – seja com o parceiro (a), amigos. Ou mesmo com o médico. O que a gente ainda não consegue (e não sei se um dia vai) é imaginar nossos pais conversando sobre a vida sexual deles. Isso já é um pouco demais. Porque, sério, nossos pais nunca transaram. E nunca vão. Porque isso seria nojento.

Se você superar essa limitação ridícula, vai apreciar “Um divã para dois”. O filme é sobre um casal de meia-idade, não muito liberal, não muito moderninho, não muito muita coisa. Como os seus pais. Streep é a esposa Kay que percebe que o fim da vida sexual transformou seu casamento numa coexistência de dois estranhos. Jones é o marido Arnold, cujo último desejo na vida é lidar com isso. Mas quando ela contrata uma semana de terapia intensiva, ele é obrigado a ceder ou encarar o fim de 31 anos juntos.

“Um divã para dois” é a história de como os dois vão discutir tópicos que eles nunca foram preparados para encarar (mesmo nós, que fomos um pouquinho, não curtimos muito a ideia). Entender que sexo não envolve só estar atraído pelo parceiro, mas também se sentir atraente para ele. Que abrir feridas significa ouvir verdades que no fundo a gente sabe, mas prefere ignorar. E o mérito do roteiro de Vanessa Taylor (acredite, de “Game of Thrones”) é ser coerente aos seus protagonistas e respeitar o tempo deles para cada descoberta e cada passo dado.

No meio do caminho havia um (problema) cabeção.

Não há subtramas: Kay e Arnold têm filhos, mas nunca se sabe nada sobre eles. E mesmo o terapeuta vivido por Steve Carell não tem personalidade, servindo como mera plataforma, um documentarista atrás das câmeras alimentando o casal com perguntas que movem sua transformação. E claro, é aí que o elenco faz toda a diferença.

Arnold é o papel perfeito para Tommy Lee Jones – ranzinza, sovina e absolutamente desconfortável em falar sobre si mesmo – que ninguém nunca teve coragem de dar ao ator. E Meryl Streep faz o que ela faz: abraça as características mais desagradáveis de sua Kay – a voz morrinhenta e a incapacidade de se afirmar diante do marido – e tem coragem de exacerbá-las, o que a impede de se tornar uma heroína irreal e a humaniza. Ainda assim, ela acha a dignidade que torna admirável o desejo de Kay de ter uma vida sexual saudável e um casamento de verdade.

David Frankel faz a direção “sai da frente”: sabe o talento que tem em mãos e não atrapalha. Mas sua habilidade em manter o ritmo de uma história tão carregada nos diálogos e em sessões de terapia, e em manter o foco da história mesmo com as oscilações entre drama e comédia do roteiro, deve ser reconhecido. “Um divã para dois” não é um filme para todo mundo, mas quem tiver coragem de encará-lo vai encontrar algo muito raro nos cinemas hoje em dia: entretenimento adulto com personagens que não são do tamanho de uma figurinha de álbum colecionável.

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