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Quando Eu Era Vivo

por

31 de janeiro de 2014

Cinema, Receituário

Quando Eu Era Vivo

Brasil, 2014

  • Dir: Marco Dutra
  • Elenco: Marat Descartes, Antônio Fagundes, Sandy Leah, Gilda Nomace, Kiko Bertholini, Helena Albergaria, Rony Koren, Tuna Dwek, Lourenço Mutarelli

Avaliação: ★★★½☆ 

“Quando Eu Era Vivo” começa como um drama psicológico, influência direta de sua inspiração original, o livro “A Arte de Produzir Efeito Sem Causa”, de Lourenço Mutarelli. Mas aos poucos – e bem aos poucos mesmo – vai caminhando para o thriller sobrenatural até chegar ao filme de terror. Para o bem ou para o mal é o nosso “O Iluminado” com fortes ingredientes de “O Bebê de Rosemary”.

Do segundo vem o apartamento como ambiente desolador, e a banalidade da classe média mascarando o horror que se esconde no interior das famílias (também presente em “O Inquilino”, do mesmo Polanski). Já do primeiro, “Quando Eu Era Vivo” importa seu Jack Torrance com Marat Descartes pirando como um Jack Nicholson cada vez mais insano. Ele é Júnior, recém-separado da esposa e desempregado que volta a morar com o pai viúvo (Fagundes) no antigo apartamento da família. Além dos dois, há também a estudante de música Bruna (Leah), inquilina que aluga um quarto no lugar. Há um mistério envolvendo a mãe de Júnior e seu irmão, e aos poucos ele vai recuperando adereços e tomando o lar aparentemente comum (cheio de bibelôs das viagens do pai), jogando aquelas pessoas em direção a um caminho cada vez mais sombrio.

O mal está diretamente ligado à memória, e a textura da memória no filme é uma fita de VHS revista pelo protagonista e que vai revelando o passado daquele apartamento. O amarelo da imagem do vídeo aos poucos domina o presente, indicando uma força incontida que vai se revelar ali. Todo o “cenário” classe média construído pelo pai vai desabando com o passar dos dias, sendo contaminado por tudo que estava até então oculto, escondido dos olhares de todos.

Se Marat Descartes exagera na medida certa e Fagundes nos apresenta o homem comum de forma competente, Sandy Leah faz o papel dela mesma; e isso em alguns momentos funciona, em outros não. Na maioria do tempo, ela acaba por nos tirar do filme, já que sua figura é forte demais para que nos esqueçamos de que quem está ali é a garota que fazia dupla com outro Júnior, o irmão. E quando ela canta, com uma voz tão conhecida, a imersão se perde, e o clima do filme é prejudicado.

Mas por outro lado, Sandy é um ícone de inocência, e sua escalação funciona como representação daquilo que será dominado pelo terror. Ela é, no filme, o mal que se esconde nas coisas mais inofensivas. Neste sentido, a cantora/atriz é mais um signo a ser reaproveitado pelo diretor Marco Dutra. Ele enche a tela de clichês do gênero reimaginados de forma inventiva: há a caixinha de música, o gato (no quadro), o sótão (que aqui é um quartinho), disco tocando ao contrário e a já citada VHS macabra. Some-se a isso lendas urbanas brasileiras como o Fofão, objetos religiosos como cabeças de gesso e estátuas de santos, e referências a filmes como “Psicose” e “Vestida Para Matar”.

O filme tira estes ícones de seus locais de conforto e os reapresenta de forma a criar um clima de tensão constante, um incômodo perverso que explode na meiga voz de Sandy cantando o macabro. Neste momento, sua escalação é justificada, mas até chegar lá foram altos e baixos em uma atuação que mais distrai do que auxilia a trama a andar. Além disso, “Quando Eu Era Vivo” às vezes se perde na lentidão, buscando segurar tanto a tensão que em determinados momentos passa do ponto, tornando-se enfadonho.

Mas são pecados menores em uma bem vinda novidade no cinema brasileiro de gênero. Este não é um filme fácil para se ver comendo pipoca em grupo e esperando um novo susto a cada cena. Há um tempo próprio que, apesar de se perder um pouco, funciona ao não mostrar nada, criando um clima de terror pela subtração da fala, substituída pelo excesso de objetos em cena. A incomunicabilidade dos dias de hoje (em que o doido da rua grita sem nunca ter resposta e a inquilina prefere dar atenção ao celular durante o jantar) é a força que apenas o oculto é capaz de romper dentro daquele apartamento.

“Quando Eu Era Vivo” é um suspense psicológico que se disfarça de filme de terror para apresentar de forma diferente as entranhas de uma classe média que vive das aparências, escondendo o que tem mais de horripilante nos “quartinhos” da inconsciência. Mas mais cedo ou mais tarde as portas se abrem. E o resultado não costuma ser o melhor de se ver.

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