Além da vida

Nossa avaliação

[xrr rating=3/5]

I see dead people.

Nesta entrevista com a jornalista Anne Thompson, o roteirista Peter Morgan admite que não considerava o script de “Além da vida” finalizado quando Clint Eastwood começou a filmá-lo. O resultado deixa claro tanto por que Morgan queria trabalhar mais no roteiro quanto por que Eastwood decidiu fazer o filme.

“Além da vida” é uma história clássica, seca e objetiva, como as que o diretor octogenário gosta de contar. É um conjunto de cenas simples e (na maior parte do tempo) bem amarradas, ainda que não exatamente polidas. Falta aquela carpintaria final em alguns diálogos, que soam discursivos ou expositivos demais, ou em algumas relações entre os personagens que, embora funcionem como estão, poderiam ser melhor desenvolvidas.

You got me at salut.

Essa “arte-finalização” conduziria a uma resolução e a um clímax mais satisfatórios, sem que os recursos um tanto forçados do melodrama ficassem tão claros. A intenção de Morgan, que referencia Charles Dickens o tempo todo no roteiro, parece ser algo como “Um conto espírita” para os tempos modernos. Do jeito que ficou, “Além da vida” é um filme de Clint Eastwood – sem grandes firulas nem concessões narrativas.

A trama segue três protagonistas. Nos EUA, George (Damon) é um médium em conflito com seu dom, que ele considera uma maldição. A francesa Marie (de France) é uma jornalista que sobrevive a uma catástrofe e passa a questionar sua fé após ter estranhas visões. E na Inglaterra, Marcus (McLaren) é um adolescente tentando lidar com a perda do irmão gêmeo – e da própria família.

Come play with us, Danny.

O olhar de Eastwood está mais voltado para os personagens do que para as tramas. O diretor parece interessado em entender a relação entre o ser humano e a fé – os diferentes papéis que ela tem em nossa vida em momentos e situações diferentes. As respostas que nos dá ou não e o peso que ela também implica. É essa abordagem humanista e respeitosa do cineasta que distancia seu filme da enxurrada de produções com temática espírita que invadiram os cinemas nos últimos tempos. “Além da vida” é menos sobre dogmas e rituais e mais sobre por que acreditamos, ou queremos acreditar.

Eastwood compensa as limitações do roteiro com sua encenação competente e seu domínio dos atores. Quando isso não é o bastante, lança mão da trilha musical composta por ele mesmo – e às vezes exagera. O problema é que esses recursos não são capazes de resolver tudo. No final, a única história que é satisfatoriamente concluída é a de Marcus. Marie e George parecem dois outros filmes que precisavam de mais tempo para funcionar. Se longa espírita é o novo blockbuster, Clint Eastwood não é seu Michael Bay… mas também não chega a ser um Chris Nolan.

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